Acordo China-EUA pode impactar soja brasileira

Valor da cotação da oleaginosa não se alterou, porém, desde a assinatura do acordo

Alto Paraíso (GO) – Plantação de soja em área do município de Alto Paraíso (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

20/01/2020

Foto: Arquivo/Agência Brasil

Com o anúncio de acordo entre Estados Unidos e China prevendo a compra preferencial de US$ 50 bilhões em produtos agropecuários norte-americanos pelo chineses, divulgado no dia 15 de janeiro, o mercado brasileiro reagiu com cautela até o momento. Algumas estimativas apontam para uma retração possível de US$ 10 bilhões nas exportações agropecuária brasileiras para o gigante asiático, a partir das preferências conquistadas pelos Estados Unidos.

Mesmo com a possível queda na comercialização de soja do Brasil, o que poderia reduzir as cotações e restringir o mercado comprador, o preço da oleaginosa pouco ou nada se alterou após a publicação do acordo. De acordo com Evandro Oliveira, consultor da Safras & Mercado, especializada em commodities agrícolas, o mercado está cético quanto ao cumprimento do que foi tratado.

Em vez da cotação da soja subir em Chicago após o anúncio, o que seria normal, já que o país teria agora um mercado mais amplo, diz Oliveira, o valor até caiu. Passou de US$ 9,42 no dia 14, antes do acordo, para US$ 9,24, no dia 16. E na sexta-feira (17), seguia em baixa. “Não se tem muita certeza de que isso será cumprido pelos chineses. E, no caso do Brasil, as cotações também ficaram estáveis. Essa pequena queda em Chicago tem compensação com a alta do dólar por aqui”, informa Oliveira.

Para o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, o principal problema do acordo é a questão da preferência de compra de produtos norte-americanos, o que deixa o Brasil em segundo plano. Luz lamenta especialmente o fato de que o Brasil deveria buscar mais parcerias internacionais, assim como tradicionalmente fazem os Estados Unidos. O acordo em si não altera o mercado, pondera o economista, porque já se esperava por isso.

Foi apenas uma confirmação. O acordo não nos tira do jogo, porém, temos que ver como isso se comportará lá na frente, já que ele prevê que a China comprará primeiro dos Estados Unidos uma extensa lista de produtos agrícolas antes de buscar em outros mercados”, ressalta Luz.

O economista, porém, aponta que, com os estoques norte-americanos de soja muito elevados, o grão poderá ser escoado no mercado justamente no período em que o Brasil normalmente realiza suas maiores exportações. Se isso ocorrer entre maio e agosto, por exemplo, pode afetar as cotações ou inibir a procura dos chineses pela oleaginosa brasileira neste período. De acordo com Luz, os estoque norte-americanos estão em torno de 28 milhões de toneladas, ante uma média normal próxima de 4 milhões.

Se eles decidirem escoar nesse período de maio a agosto, que é a entressafra deles, aí poderemos ser afetados. O que incomoda é questão da preferência. Porque o Brasil também não faz esse tipo de acordo?”, questiona Luz. O economista também chama a atenção para outro fato relacionado ao acordo e que deveria ser tomado como exemplo, ou reflexão, por aqui.

Enquanto os norte-americanos comemoram esse ganho com as exportações agrícolas, aqui é criticado por ser produção primária, sem levar em conta toda a tecnologia que existe nas lavouras e seu reflexos na economia como um todo”, desabafa Luz.

Por outro lado, ainda de acordo com o representante da Farsul, a China não tem interesse em criar dependência de produtos norte-americanos. Ou seja, não deve retrair significativamente suas aquisições de alimentos de outros mercados a partir do acordo. “O problema é que, do lado dos Estados Unidos, eles serão obrigados a comprar da China. De nós, compram porque querem e quando querem”, alerta Luz.

Fonte: Portal/Jornal do Comércio do RS

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